Enquanto os católicos aguardam em oração o Conclave e a escolha do novo Papa relembro trechos de duas grandes obras ("Os irmãos Karamazov" do russo Fiódor Dostoiévski; "Casa-grande & senzala" de Gilberto Freyre) que nos falam do amor de cristo atuando nas relações entre os educadores cristãos e seus pupilos.
'Gregório ensinou-o a ler e a história sagrada desde que completou 12 anos. Mas esta tentativa foi infeliz. Um dia, numa das primeiras lições, o menino pôs-se a rir.
- Que tens? - perguntou Gregório, olhando-o severamente por cima de seus óculos.
- Nada. Deus criou o mundo no primeiro dia; o sol, a lua, e as estrelas no quarto dia. Donde vinha, pois, a luz do primeiro dia?
Gregório ficou estupefato. O menino olhava seu amo com ar irônico, seu olhar parecia mesmo provocá-lo. Gregório não pode contentar-se: "Eis donde ela veio!", exclamou, esbofeteando-o violentamente.'
Fiódor Dostoiévski. Os irmãos Karamazov. São Paulo: Abril Cultural, 1970, p. 126
'Os padres-mestres e os capelães de engenho, que, depois da saída dos jesuítas, tornaram-se os principais responsáveis pela educação dos meninos brasileiros, tentaram reagir contra a onda absorvente da influência negra, subindo das senzalas às casas-grandes; e agindo mais poderosamente sobre a língua dos sinhô-moços e das sinhazinhas do que eles, padre-mestres, com todo o seu latim e com toda a sua gramática; com todo o prestígio das suas varas de marmelo e das suas palmatórias de sicupira. Frei Miguel do Sacramento Lopes Gomes era um dos que se indignavam quando ouvia "meninas galantes" dizerem "mandá", "buscá", "comê", "mi espere", "ti faço", "mi deixe", "muler", "coler", "le pediu", "cadê ele", "vigie", "espie". E dissesse algum menino em sua presença um "pru mode" ou um "oxente"; veria o que era o beliscão de frade zangado.'
Gilberto Freyre. Casa-grande & senzala. 46ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 389.
O governo busca patrocínios para realizar um show de Paul MacCartney no Estádio Serra Dourada. Seria entre abril e maio, quando o cantor estará em turnê pela América do Sul."
Coluna Giro - O Popular - 27/03/2013
Diversas lideranças do atual executivo goiano - Avança Goiás - criticam a intervenção estatal na economia até a perna de mesa cansar, mas querem produzir show internacional? Que coisa estranha. Bom, mas vamos mudar isso aqui, melhor dizer, promover show de McCartney, abaixo vem a dica de quem deverá produzir.
Aliás, em Belo Horizonte o show de Paul McCartney foi confirmado pelo Secretário de Estado Extraordinário da Copa do Mundo, Tiago Lacerda - nomeação questionada pelo ministério público de MG- , filho do atual prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda do PSB.
Do blog de Fabiana Pulcinelli temos novas notícias, sobre valores:
Governo estadual pagará R$ 1 milhão por show do Paul McCartney em Goiânia
O governo de Goiás está disposto a bancar a metade do valor do show do Paul McCartney em Goiânia, de R$ 1 milhão. A outra cota de patrocínio deve ser fechada esta semana com uma empresa.
Conforme divulgou O POPULAR hoje com exclusividade, o show será na primeira semana de maio, no estádio Serra Dourada. Hoje pela manhã, a informação do governo é de que a data mais provável é dia 5.
Luiz Oscar Niemeyer, produtor do Paul na América do Sul, esteve em Goiânia na semana passada, junto com equipe técnica, quando conheceram estádio e hotéis. Luiz, neto de Oscar Niemeyer, também visitou o Centro Cultural que leva o nome do avô e sugeriu realizar evento de anúncio do show no local.
Os valores dos ingressos ainda não foram definidos, mas o governo afirma que deve ser na média dos preços do show em Fortaleza e Belo Horizonte. Lá os valores ainda não foram divulgados.
Quem levou a ideia do show em Goiânia ao governo foi o cantor sertanejo Zezé di Camargo, goiano de Pirenópolis. Luiz Oscar comentou que gostaria de fazer o show em Brasília, mas que o estádio não estaria pronto, e perguntou se seria uma boa opção a capital goiana. Zezé entrou em contato imediatamente com o governador Marconi Perillo (PSDB), que ficou entusiasmado com a possibilidade e acelerou as articulações. O tucano viu o show do ex-beatle no Rio em 2011.
"R$ 1 milhão não é nada perto do que vamos movimentar a cidade e pela importância de um show como esse. Vai vir gente de Minas, Tocantins, Brasília. Isso movimenta muito a economia", diz uma fonte do governo, que participa da negociação.
Não creio ser pedante apresentar uma correção feita por Flávio Khote para uma noção vulgarmente difundida quando se propõe a analisar produção artística e cultural na contemporaneidade.
"A sociologia usa a expressão "indústria cultural", que neutraliza o sentido crítico de "Kulturindustrie", "indústria da cultura", usado por Adorno e Horkheimer em 1947, no livro Dialektik der Aufklaerung, Dialética do iluminismo (também mal traduzido como "Dialética do esclarecimento"). O termo "indústria cultural" sugere que a indústria "é" cultural, mas o sentido original é que a industrialização da cultura, em que esta é confundida com a mercadoria, constitui um ataque à cultura, reduzindo-a à diversidade e à banalidade". Flávio R. Khote. Nota do tradutor. In: (sel.; trad.) NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos finais. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2007, p. 15.
Ainda que esclarecida a confusão, me arrisco a dizer que na perspectiva 'frankfurtiana' certamente no Brasil estaríamos reduzidos à arte menor, à cultura banal e diversa. Em volta da questão da indústria da cultura alguns textos recentes circulam pela internet e aguçam a reflexão.
Mino Carta em editorial da revista Carta Capital critica o que chama de imbecilização do Brasil, mais do que discutir a produção artística, o jornalista coloca a grande mídia, sobretudo Globo e Veja como as grandes vilãs nesse processo. Ao que parece o espectro adorniano ronda a análise de Carta:
O deserto cultural em que vivemos tem largas e evidentes explicações, entre elas, a lassidão de quem teria condições de resistir. http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-imbecilizacao-do-brasil/
A também jornalista da revista Carta Capital, Cynara Menezes, respondeu Mino Carta defendendo uma perspectiva para arte que questiona a ideia de deserto cultural e imbecilização do Brasil. A socialista morena já se distancia da perspectiva iluminista adorniana para defender a ideia de que do "lixão nasce flor", retomando metáfora que finaliza texto de Carta:
Nos últimos anos, uma nova cultura está surgindo, mas é preciso ter olhos para vê-la. É forte a cultura que vem da periferia e cada vez mais será. http://www.socialistamorena.com.br/em-que-tipo-de-arte-voce-acredita-ou-a-imbecilizacao-da-elite/
Outro texto é uma entrevista muito interessante do antropólogo Hermano Vianna, que diferente da socialista morena não crê na ideia de inclusão para falar em arte e cultura, e se posiciona em uma perspectiva relativista:
Constantemente me pego fazendo coro para Hêmon brigando com seu pai Creonte, em Antígona: "Guarda-te, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas". Não tem quem me convença que há um fundamento estético único a partir do qual podemos decretar o empobrecimento ou o enriquecimento das criações humanas. Mas digamos que há: então encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade. O tamborzão do funk salvou a música brasileira na virada do século 20 para o 21. É vanguarda mesmo, concretismo eletrônico afro-brasileiro. Mas para quem acha que hip hop não é música, ou que Stockhausen não é música, o que estou falando é delírio. Um consolo é saber que a produção da gravadora Motown um dia foi considerada por todos os críticos como lixo comercial sem futuro. http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-abacaxi-da-cultura,995433,0.htm
Entre essas reflexões cada uma ao seu modo tem trechos que me desagradam e outros que me aprazem, mas sobretudo contribuem ao seu modo para que eu amadureça um estudo sobre culturas políticas do rap no Brasil e em Cuba durante os anos 1990.
Se hoje o casamento gay é tido como uma ameaça a família, na primeira metade do século XX, para Mário de Andrade, o rádio era a ameaça:
"Na sociedade contemporânea, com a ascensão do proletariado e da pequena burguesia a ele adesiva, os dois grandes instrumentos musicais do nosso tempo, vitrola e rádio, especificamente popularescos, mostram a definitiva derrota da vida familiar (substituição do piano - família, pelo rádio = colectividade popularesca) como princípio básico da sociedade". Mário de Andrade em carta para Oneyda Alvarenga, 1940 (Apud, QUINTERA-RIVERA, Mareia. A cor e o som da nação: a idéia de mestiçagem na crítica musical do Caribe hispânico e do Brasil (1928-19480). São Paulo: Annablume/FAPESP, 2000, p.119)
As primeiras transmissões radiofônicas no Brasil ocorreram em 1922, no link a seguir o site de Magali Prado - certamente o mais completo sobre a história do rádio no Brasil: http://www.historiadoradionobrasil.com.br/
Nos 90 anos de rádio no Brasil o Observatório da Imprensa realizou um programa especial, que conta com a própria Magali Prado e outros especialistas, além de gente que ajudou a fazer o rádio no Brasil. Vale a pena ser visto:
Enfim, o rádio não acabou com a família - inclusive algumas famílias foram formadas através da mediação radiofônica -, e nem as transformações tecnológicas acabaram com o rádio. Certamente a família e o rádio não são os mesmos da década de 20 do século passado, transformações inevitáveis, pois nada é constante entre o céu e a terra, sobretudo quando se trata de produtos humanos.
Aliás, se Mário de Andrade, um homem de sexualidade indefinida, vivesse nos dias de hoje, caracterizados por uma moralidade mais maleável, possivelmente não faria ressalvas ao casamento gay e quiçá defenderia o rádio analógico contra o rádio digital pela preservação da qualidade sonora.
O dia 2 de novembro - dia de finados - possivelmente foi instituído como uma convenção no mundo cristão/católico por volta do século XIII , por algum destes papas: http://va.mu/YfNs. Possivelmente a tradição é uma manutenção de uma celebração dos celtas, povos que viveram entre Europa e Ásia a partir de 4 mil anos atrás. Os celtas celebravam a entrada do outono/inverno o fim de um ano em 1 de novembro, data que foi modificada no século XIII por coincidir com a celebração de "todos os santos".
A questão da morte para os cristão passaria pelos seguintes pontos:
No livro de Hebreus 9.27 se lê que após a morte segue-se o juízo. E Jesus contou sobre a situação dos mortos Lc 16.19-31. Nessa parte bíblica destacamos quatro ensinamento de Jesus: a) que há consciência após a morte; b) existe sofrimento e existe bem estar; c) não existe comunicação de mortos com os vivos; d) a situação dos mortos não permite mudança. Cada qual ficará no lugar da sua escolha em vida. Os que morrem no Senhor gozarão de felicidade eterna (Ap 14.13) e os que escolheram viver fora do propósito de Deus, que escolheram o caminho largo (Mt 7.13-14) irão para o lugar de tormento consciente de onde jamais poderão sair. (
http://va.mu/YfN2)
A questão incerta é que teríamos consciência após a morte, respondendo pelos nossos atos em vida, cujo principal é escolher seguir Jesus Cristo ou estar condenado. Disse Schopenhauer, em As Dores do Mundo, ser um erro acreditar e afirmar a superioridade da moral cristã. Uma vez que honestidade, fidelidade, tolerância, serenidade, benevolência, generosidade, abnegação seriam encontradas entre maometanos, guebros (persas zoroastristas), hindus e budistas. Segundo texto do portal São Franscisco outras religiões e vertentes do cristianismo possuem em relação a morte as seguintes perspectivas:
A) os espíritas crêem na reencarnação. Reencarnam repetidamente até se tornarem espíritos puros. Não crêem na ressurreição dos mortos.(Idem)
Esta é uma perspectiva que talvez dialogue com a percepção celta. Também imagino que os criadores do espiritismo conheceram a doutrina hindu.
B) os hinduístas crêem na transmigração das almas, que é a mesma doutrina da reencarnação. Só que os ensinam que o ser humano pode regredir noutra existência e assim voltar a este mundo como um animal ou até mesmo como um inseto: carrapato, piolho, barata, como um tigre, como uma cobra, etc. (Idem)
C) os budistas crêem no Nirvana, que é um tipo de aniquilamento.
D) As testemunhas de Jeová crêem no aniquilamento. Morreu a pessoa está aniquilada. Simplesmente deixou de existir. Existem 3 classes de pessoas: os ímpios, os injustos e os justos. No caso dos ímpios não ressuscitam mais. Os injustos são todos os que morreram desde Adão. Irão ressuscitar 20 bilhões de mortos para terem uma nova chance de salvação durante o milênio. Se passarem pela última prova, poderão viver para sempre na terra. Dentre os justos, duas classes: os ungidos que irão para o céu, 144 mil. Os demais viverão para sempre na terra se passarem pela última prova depois de mil anos. Caso não passem serão aniquilados.
Aniquilamento e predestinação, eu realmente não sabia dessa visão, eu sabia que as Testemunhas de Jeová pregam sua crença de casa em casa, principalmente no sábado pela manhã. Será que a ideia das classes justificam a proibição de transfusão de sangue?
E) os adventistas crêem no sono da alma. Morreu o homem, a alma ou o espírito, que para eles é apenas o ar que a pessoa respira, esse ar retorna à atmosfera. A pessoa dorme na sepultura inconsciente.
O culto dos ancestrais está presente nas religiões africanas ressignificadas no Brasil pelos indivíduos e grupos escravizados. Os migrantes forçados, tragos da África chegaram ao longo de mais de três séculos, trazendo consigo somente as ideias e entre elas aquelas ligadas ao supra-terreno. Os cultos aos voduns,loas e orixás tragos pelos sudaneses - generificação de uma linagem de escravizados vindos da região Costa da Mina especificamente os fons do Daomé e yorubás do Benin, resistem e persistem, assim como desencadearam diversas formas de religiosidade, como por exemplo a Umbanda. O documentário de Rentato Barbiere, O Atlântico Negro-na rota dos orixás de 1997 é uma das melhores introduções à esse respeito. Os ancestrais divinizados são cultuados diariamente nos terreiros e barracões Brasil a fora e não em uma data específica.
Particularmente creio ser importante lembrarmos e mantermos vivas as relações com nossos ancestrais. Tenho uma impressão de que tal relação pode se constituir em um aprendizado constante na relação com os mais velhos. A sabedoria dos que já experienciaram, viveram é necessária para continuar os projetos e expectativas, ainda que ressignificadas e transformadas pelo passar do tempo, pelos desafios colocados pelo momento em que cada individuo e geração vive.
Saindo do campo da religiosidade para o campo das artes compartilho algumas obras de artistas brasileiros que tratam do tema da morte, nossa única certeza, pensada e decantada em verso e prosa por alguns de nossos antepassados.
Uma relação satírica e jocosa foi expressa pelo poeta Manuel Antonio Álvares de Azevedo nascido em São Paulo, em seu O poeta moribundo presente em Lira dos Vintes Anos,obra produzida quando certamente o poeta estava moribundo, acometido por tuberculose e pelos efeitos de uma queda de um cavalo que levou à um tumor na fossa ilíaca, operado sem anestesia e falecido aos 23 anos em 25 de abril de 1852 no Rio de Janeiro.
Poetas! amanhã ao meu cadáver Minha tripa cortai mais sonorosa!... Façam dela uma corda e cantem nela Os amores da vida esperançosa!
Cantem esse verão que me alentava... O aroma dos currais, o bezerrinho, As aves que na sombra suspiravam, E os sapos que cantavam no caminho!
Coração, por que tremes? Se esta lira Nas minhas mãos sem força desafina, Enquanto ao cemitério não te levam, Casa no marimbau a alma divina!
Eu morro qual nas mãos da cozinheira O marreco piando na agonia... Como o cisne de outrora... que gemendo Entre os hinos de amor se enternecia.
Coração, por que tremes? Vejo a morte, Ali vem lazarenta e desdentada... Que noiva!... E devo então dormir com ela? Se ela ao menos dormisse mascarada!
Que ruínas! que amor petrificado! Tão antideluviano e gigantesco! Ora, façam idéia que ternuras Terá essa lagarta posta ao fresco!
Antes mil vezes que dormir com ela. Que dessa fúria o gozo, amor eterno Se ali não há também amor de velha, Dêem-me as caldeiras do terceiro inferno!
No inferno estão suavíssimas belezas, Cleópatras, Helenas, Eleonoras; Lá se namora em boa companhia, Não pode haver inferno com Senhoras!
Se é verdade que os homens gozadores, Amigos de no vinho ter consolos, Foram com Satanás fazer colônia, Antes lá que no Céu sofrer os tolos!
Ora! e forcem um'alma qual a minha, Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça, A cantar ladainha eternamente E por mil anos ajudar a Missa!
O que me parece momentaneamente relevante no poema acima é a oposição entre juventude e velhice, inferno e paraíso. Azevedo parece remeter a um certo paganismo, um distanciamento à moral cristã, que no seu tempo era a própria moral cidadã, através da vigência do padroado.
Amargura e ceticismo é o que nos legou Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nascido em 20 de abril de 1884 no Engenho Pau d'Arco na Paraíba. Formado em Direito no ano de 1907 não advogou, viveu do magistério, ensinando português, geografia no Rio de Janeiro além de dirigir escola em Leopoldina-MG, onde morreu em 12 de novembro de 1914. Seu poema Versos íntimos compõe sua única obra de 1912, Eu.
Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão - esta pantera - Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
Em Versos íntimos o inferno parece ser o que se vive em vida, onde os mesmos que afagam são os que ferem. Me apraz esta quebra do maniqueísmo, sinto uma aproximação com a ética das cosmogonias africanas, onde não há caminho do bem e do mal, mas uma eterna coexistência presente nas ideias e nos atos das pessoas, como nos deuses e divindades.
No âmbito da prosa temos o formidável Memórias Póstumas de Brás Cubas (1880-1881) de Machado de Assis (Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 - 29 de setembro de 1908). Obra considerada como precursora do Realismo no Brasil, onde Machado de Assis nos brinda com uma narrativa de um cadáver que resolve contar suas memórias. Morto, Brás Cubas poderia não ser comedido ao tratar dos valores de sua época, época que revelava que as ideias estavam fora do lugar. Vamos ao prólogo:
AO VERME
QUE
PRIMEIRO ROEU AS FRIAS CARNES
DO MEU CADÁVER
DEDICO
COMO SAUDOSA LEMBRANÇA
ESTAS
MEMÓRIAS PÓSTUMAS
AO LEITOR
QUE STENDHAL confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual, ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.
Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas minimamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.
É preciso ler mesmo que tenha a possibilidade de levar um papirote, conhecer a vida de Brás Cubas, prenhe de ideias fixas a dar cabriolas de volatim.
Para finalizar reforçamos a veia satírica com a valsa de 1940 Romance de uma Caveira de autoria de Chiquinho Sales (1909) e gravada por Alvarenga e Ranchinho, Murilo Alvarenga (1912-1978) e Diésis dos Anjos Gaia (1913-1991) respectivamente.
Enfrentar a morte de frente pode ser uma boa possibilidade para diminuir a angústia dessa nossa única (in)certeza - que a vida findará a qualquer instante.
É preciso, ainda, lembrar que os antepassados que com a morte acertaram as contas ainda em vida permaneceram eternizados através de suas obras de arte, nos legando a oportunidade de pensar a partir de suas perspectivas.
Um brinde aos mortos, um brinde à vida!
Quem não quis ser Robin Hood? Castro desenvolve uma análise interessante para pensarmos os processo criativos para além das ideias antiquadas e cerceadoras. depredando o orelhão: A ascensão do Robin Hood digital (Instigações à Re...: A nova face de Robin Hood? "Temos que criar um outro conceito de criação!" O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro instiga-nos ...
O cineasta Jorge Furtado faz o que o jornalismo vendilhão em Goiás não faz. E você, é cúmplice ou distraído?
porJorge Furtadoem 05 de abril de 2012
Pessoas medianamente bem informadas (1) sabiam muito bem quem era o senador Demóstenes Torres, o ex-Democrata e ex-moralista de Goiás. Para estas pessoas (2) fica difícil aceitar os panegíricos ao senador, elogios rasgados feitos por seus pares, que se revezaram na tribuna, em loas ao seu caráter ilibado e seu alto espírito público. Isso enquanto Demóstenes, senador da República, recebia, pelo telefone e de maneira bastante ríspida, ordens expressas de criminosos, ordens para aprovar leis ou contratar funcionários fantasmas.
Só os muito distraídos ou seus cúmplices na maracutaia - há dúvidas sobre em qual categoria inclui-se o então presidente do STF, o ministro Gilmar Mendes - acreditaram no grampo sem áudio (3), a pantomima transformada em crise institucional pelo braço midiático da quadrilha de Carlinhos Cachoeira ou, como gostam de lhe chamar, do empresário Carlos Ramos.
Pois o ramo do Ramos é, segundo a Polícia Federal e seus grampos com áudio, o crime, em várias modalidades. Sobre a turma dos cúmplices, diz a decisão da Justiça, na página 3: "Detectou-se ainda, nas investigações, os estreitos contatos da quadrilha com alguns jornalistas para a divulgação de conteúdo capaz de favorecer os interesses do crime".
Quando, em 2004, a empresa de Carlos Ramos resolveu tomar seus pontos no butim de Brasília, seu braço na mídia providenciou o vídeo que, estrelado por um corrupto de 3 mil reais, deflagrou a "crise do mensalão". A palavra é uma brilhante criação de Roberto Jefferson, advogado, tenor e réu confesso, e passou a ser, com a ampla participação da turma dos distraídos, a senha anti-petista, parece haver quem ganhe por citação, em bônus de final de ano, com um panetone.
Com a crise do mensalão (que, como lembra o Mino Carta, ainda está por provar-se), Cachoeira e amigos tomaram conta dos Correios, mas só por algum tempo. Se bem me lembro, levou dois anos para que seus afilhados por lá fossem descobertos e presos. Na época, e eu falo do período e não da revista, o democrata FHC, ao invés de derrubar o governo Lula, preferiu "sangrá-lo até a derrota".
Só que ela não veio. Veio mais Lula e, agora, Dilma.
Na Veja, e eu falo da revista, uma longa série de factóides, muitos deles criados pela quadrilha de Cachoeira, foram parar na capa. Quem afirma isto é o próprio empresário Carlos Ramos, num dos grampos:
Cachoeira: Porque os grande furos do Policarpo fomos nós que demos, rapaz. Todos eles fomos nós que demos. (...) Ele pediu uma coisa? Você pega uma fita dessa aí e ao invés de entregar pra ele fala: "Tá aqui, ó, ele tá pedindo, como é que a gente faz?". Entendeu?
Poliocarpo, no caso, é o Júnior, editor-chefe da revista em Brasília, um bom camarada de conversas do empresário Carlos Ramos, trocaram mais de 200 telefonemas. Com as fitas na mão e o acesso à capa da revista de maior circulação do país, a quadrilha tinha alto poder de persuasão.
Desde que os filhos da Casa Grande perderam a chave do palácio do Planalto, há dez anos, os factóides desta quadrilha e seus cúmplices, transformados em eventos midiáticos com a ajuda dos distraídos, converteram a política brasileira num trem fantasma, um desfile de monstrengos moralistas, uma opereta burlesco-udenista onde brilharam Demóstenes Torres, Agripino Maia, Álvaro Dias e ACM Neto.
É bom lembrar que o governador de Goiás, o tucano Marconi Perillo, tinha como chefe de gabinete uma simpática senhora que, decerto entre entre outras atividades, avisava os bandidos quando e como fugir da polícia. Também é bom lembrar que Perillo era o vice presidente do Senado quando a imprensa e a oposição tentaram derrubar José Sarney. Foram impedidas por Lula. A imprensa - os cúmplices e os distraídos - e a oposição queriam colocar Perillo na presidência do Senado, quem sabe na Presidência da República.
Nos últimos dez anos, pelo menos, a quadrilha de Cachoeira, que inclui senadores, deputados, governadores, prefeitos, promotores, juízes e policiais, pautou a vida política do país, criando ou turbinando escândalos, transformando tapiocas em crises nacionais, inventando dossiês, dinheiros de Cuba e do Tamiflu, rebaixando o debate politico e espantando pessoas decentes da vida pública. Fizeram um mal terrível ao pais, com a cumplicidade criminosa de alguns jornalistas.
Segundo a decisão da justiça que mandou essa turma temporariemante para a cadeia, o braço midiático da quadrilha era responsável pela "divulgação de conteúdo capaz de favorecer os interesses do crime". Hoje, muitos se dizem chocados com o comportamento de Demóstenes. Resta saber quais os cúmplices e quais os distraídos.
Em qualquer das hipóteses, não parece fazer muito sentido pagar para ler ou ouvir o que dizem.
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Mote: Demóstenes
Não lembrar é uma armadilha
que, ao futuro, bem não traz.
A capital é uma ilha.
Por todo lado, Goiás.
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Notas:
(1) Eu, por exemplo.
(2) Já me citei como exemplo? Adiante, então.
(3) Sem bons jornalistas não há democracia possível. Escute o comentário de Bob
Fernandes sobre as relações entre Demóstenes Torres e Gilmar Mendes e
descubra porquê.