A conceituada agencia True Outspeak envia comunicado aos paranoicos da resistência.
Está comprovado que o Papa Francisco atua na linha de frente da articulação para o golpe comunista.
A primeira fase do golpe já está em estágio avançado. Trata-se da paralisação do parque industrial
paulistano, através de sabotagem na distribuição de água. Esta ação
possivelmente é comandada pelo Camarada Peterovsky de quem Francisco é
muito próximo.
Uma das primeiras medidas dos comunas, após o golpe, será o envio dos paranoicos para unidades de reabilitação no deserto da Cantareira, geridas por Oséias 4 e 20. Os paranoicos serão obrigados a afastar-se das carreiras e arrumar a própria cama,
sem direito ao auxílio reclusão, assinaturas da Abril e Globosat. Os
que não forem enviados para as unidades de reabilitação terão de se
contentar com o Beto Carrero World, Magazine Luiza e médicos da família cubanos. Não passarão, lutaremos pela memória de Justo Veríssimo.
Entrada de uma unidade de reabilitação.
A agência ainda alerta para a tática espúria de plantar provas para incriminar agentes da paranoia. Toda cautela é necessária. Apesar do prejuízo aos nossos cofres, não podemos desistir. Não esmoreça e atue nas redes sociais pela disseminação da paranoia, siga o exemplo do bravo Renato Pachoal. E cuidado, não comemore antes da hora, isso poderá arrefecer os ânimos dos combatentes. Acesse o canal de nosso historiador e faça os cursos de formação, sintonize nosso canal de tv não é nenhuma Escola de Júpiter, mas é o melhor dentro do padrão obscurantista que nos guia.
Após consulta aos astros o guru da resistência paranoica
envia mensagem luminosa: "o cordeiro da salvação veste pele de
lobo". Para se juntar a ele basta seguir as orientações do Messias Bolsonaro e do ungido Malafaia.
Anauê!
Não deixe de acessar o ensaio crítico da jornalista e musa ariana, voltado especialmente para o aprimoramento das técnicas onanistas, fundamento básico da direita festiva:
O funk ostentação é hip-hop, o que não quer dizer que a cultura hip-hop resume-se à ostentação. O funk ostentação que se desenvolveu em São Paulo (Santos e Capital) no final da década passada tem a ver com a tendência do rap que glamoriza o estilo PIMP (Cafetão/Proxeneta). Desenvolvo algumas questões para tentar convencer o leitor sobre a validade desta afirmação.
O PIMP é o estilo gangsta na versão século XXI, que renovou e reatualizou a linhagem iniciada nos fins dos anos 1980 por Ice-T, ampliada por 2 Live Crew, aprofundada por N.W.A., aprimorada por Dr. Dre e Snoop Dog, tomando um caminho sem volta com 2Pac e Notorious Big. O estilo PIMP foi muito bem defendido por 50Cent em seu disco de estréia de 2003, Get Rich or Die Tryin' (Fique rio ou morra tentando), e ele conseguiu, é o típico self made man -50Cent na Forbes.
Em 2013 50Cent lançou o clipe de We Up, com Kendrick Lamar - a nova revelação do rap estadunidense-, reafirmando a tendência, ostentando mulheres, jóias, carros, marcas. Interessante que a semelhança do sertanejo arrocha com o estilo PIMP não é mera coincidência, é pura ostentação. A ostentação e as excentricidades não se limitam aos artistas dos gêneros "malditos", melhor dizer amaldiçoados, inclusive quando suas obras são criticadas como "não música".
A excentricidade e a ostentação estão presentes no rock, em outros gêneros musicais e outras artes, típico da performance da celebridade, por exemplo: NickMason e suas Ferraris; os carros de Nikki Sixx; Frank Sinatra e a máfia; a oração de Janis Joplin por uma Mercedes Benz. Seria uma lista infindável.
Voltemos a We Up, nela os rappers rimam a vida complicada de milionário, afirmam como deram duro para conquistar riqueza, e como serão duros para manter as conquistas. Criticam os aproveitadores e se gabam de não serem negros como aqueles que usam falsificações. Saíram do gueto, mas hoje têm estilo e poder para adquirir "good pussy for dinner/ bomb kush for breakfast":
No documentário sobre o funk ostentação produzido por Kondizila podemos conferir as afinidades temáticas e performáticas entre os dois estilos. O que faz o funk ostentação ser hip-hop são elementos básicos: música para a dança, uso da antifonia (chamado e resposta), bases musicais produzidas através de samplers e programações, rimas geralmente em primeira pessoa, caracterizadas por improviso e bazófia, artistas, em geral, negros e de classe baixa, enfim, marginalizados, produzindo crônicas sobre o cotidiano vivido por eles. Parte da juventude urbana que é, justamente, aquela que corre mais risco de morrer antes da velhice, o que ajuda a entender o lema do Vida Loka: "viver pouco como um rei, ou muito como um zé?":
O rap nacional, que seria o hip-hop real, não deixa por menos, de Cabal à MV Bill, passando pelo time da Bagua Records. Os manos Claudinho e Lethal me disseram, porém, que o verdadeiro PIMP brasileiro é o Mr. Catra.
É possível retroceder um pouco para pensarmos a questão das relações ostentatórias dos artistas negros com as grandes marcas. No livro Sem Logo: as tiranias das marcas em um planeta vendido Naomi Klein argumenta que nos anos 1980 os jovens negros dos bairros pobres dos EUA serviram como fonte de "significado" e identidade para várias marcas. Abaixo reproduzo um trecho sobre o caso do grupo Run DMC e sua homenagem "espontânea" à marca Adidas.
O mais recente capítulo na corrida do ouro do mainstream americano para a pobreza começou em 1986, quando os rappers do Run-DMC deram uma nova vida aos produtos Adidas com seu sucesso My Adidas, uma homenagem a sua marca favorita. Anteriormente, o trio de rap loucamente popular tinha hordas de fãs copiando seu estilo de assinatura e medalhões de ouro, abrigos Adidas preto e branco e tênis Adidas cavados, sem cadarços. "Calçamos esses tênis toda a nossa vida", disse Darryl McDaniels (também conhecido como DMC) de seus calçados Adidas na época.
Foi ótimo por algum tempo, mas depois ocorreu a Russell Simmons, presidente do selo Def Jam Records do Run-DMC, que os rapazes deviam ter sido pagos pela promoção que estavam fazendo para a Adidas. Ele abordou a empresa de calçados alemã sobre a possibilidade de destinar algum dinheiro para a turnê Together de 1987. Os executivos da Adidas foram céticos a respeito de se associar com a música rap, que na época era rejeitada como uma moda passageira ou difamada como uma incitação à baderna. Para ajudá-los a mudar de ideia, Simmons levou dois mandachuvas da Adidas a um show do Run DMC. Christopher Vaughn descreve o evento na Black Enterprise: "No momento crucial, enquanto o grupo de rap estava apresentando a canção [My Adidas], um dos membros do grupo gritou, 'OK, todo mundo balançando seu Adidas!' — e três mil pares de tênis foram atirados para o ar. Os executivos da Adidas sacaram seu talão de cheques com uma rapidez recorde." Durante a feira anual de calçados esportivos em Atlanta naquele ano, a Adidas revelou sua nova linha de calçados Run-DMC: a Super Star e a Ultra Star - "desenhados para ser usados sem cadarços".
Será que veremos algum acordo entre as marcas e os funkeiros que as ostentam?
Será que iremos nos deparar com a repetição da tragédia, agora como farsa?
Enfim, como canta MC Dede "quem pode, pode/quem não pode se sacode". E essa molecada está fazendo muita gente sacudir, sobretudo, quando os fãs que vivem em áreas sem equipamentos públicos de lazer - onde bailes são proibidos, muitas vezes com toque de recolher, encurralados entre a violência do crime organizado de farda ou à paisano, áreas nem um pouco parecidas com as paisagens da publicidade que alimenta a ostentação - saem para rolezinhos nos shoppings.
Se ser cidadão é ser consumidor, essa galera já entendeu. E é por isso que as marcas são para eles - como o são inclusive para quem não ostenta flagrantemente - fontes de "significado" e identidade. O problema são os atravessadores...
Decadência, degeneração? Que nada. A exploração, as discriminações, as violências, o racismo e as desigualdades seguem firmes e fortes. Nestor Garcia Canclini apontou algumas questões que valem repetir e refletir:
Enquanto as ações de massa não desenvolverem intervenções adequadas à extensão e eficácia da mídia, prevalecerão as dissidências atomizadas, os comportamentos grupais erráticos, conectados mais pelo imaginário do consumo e menos pelos desejos comunitários. (1999, p. 287)
Ou abraçamos o ideal utópico, como afirma o crítico argentino, na medida em que haja o desejo de que a "emancipação e a renovação do real continuem fazendo parte da vida social" ou seguiremos shaking our branding make, pois a Copa vem aí e dá-lhe ostentação. É possível acreditar que o apelo publicitário das marcas será sobrepujado pelo "say no to racism"? A nova diva do hip-hop nacional, Karol Konka, já está faturando, e não há nada demais, o perigo está na afirmação do esporte e da música como um fim e não como meio para a emancipação da juventude negra e pobre.
Como disse acima, o hip-hop não pode ser resumido à ostentação, e a atuação dos artistas vai muito além da imagem que se consome. Ao mesmo tempo, dentro do próprio hip-hop vem a auto-crítica e a chamada à responsabilidade pela defesa de um dos elementos chaves dessa cultura, defendidos por Afrika Bambaataa e muitos outros, o conhecimento e a consciência. Assim, quando GOG se nega a participar de evento da Fifa com a Rede Globo; quando sarais de poesia, a literatura marginal e o cine periferia desafiam as forças contrárias; ou quandoDexterquestiona a fita dominada, temos ações emancipatórias, pois críticas do status quo, e que contribuem para a renovação do real.
O importante é que a liberdade para ser o que quiser ser, para consumir o que deseja sejam garantidas, assim como, o conhecimento sobre as origens das matérias primas -de onde vêm as matérias primas, as formas de produção, descarte dos produtos entre outras questões, é preciso saber das consequências em abraçar o american way of life. Além do mais nós somos péssimos consumidores, não para as empresas é claro, pagamos caro, sem muita reclamação, em nome do status. Por outro lado, não prestamos atenção na atuação social das empresas, se elas apoiam programas sociais, ambientais, culturais, o que já ajudaria a amenizar o fosso, sobretudo se estes projetos estivessem onde o Estado não chegou, nas áreas de onde saem a galera dos rolezinhos. Em Diadema, por exemplo, a Casa do Hip-Hop onde foram realizadas várias atividades de formação e recreação por mais de dez anos, atualmente está às traças. O bom é que King Nino Brown, um dos criadores, está atuando na nova Casa do Hip-Hop em São Bernardo do Campo. Em Goiânia e Goiás também há também diversos coletivos e indivíduos fazendo a diferença, no break: Mega Break e Electro Rock; no rap a VMG e outras bancas; Dj Fox na produção de vídeo clipes; CRJ na formação; RapGyn e Marginal Latino na informação.
Outro questão a ser refletida é a falta de conhecimento sobre as leis de incentivo cultural, muitos hip-hoppers criticam, com a afirmação de que é um dinheiro dos políticos, e de que são independentes, mas não entendem que é um financiamento à base dos impostos pagos por pessoas físicas e jurídicas, aprender a fazer projetos para garantir o financiamento dos trabalhos autorais é de suma importância para garantir a emancipação. A história do Dexter é exemplar, pois para bancar as gravações de um disco buscou no 157 a saída, qual dinheiro será mais sujo, o das leis de incentivo ou o produto do crime? Porque o hip-hop crítico, politicamente posicionado, ou os projetos para o breakdance, para o audiovisual, para os livros não são artes que produzem retornos econômicos que os possibilitem sobreviver, e enquanto as empresas não invistam, como mero merchandising, as leis de incentivo são uma possibilidade, e mais, um direito irrefutável.
Não é fácil, porém, fugir às tentações e às dominações simbólicas e de fato. São estruturas poderosas e cambiantes disseminadas em micro-poderes. Desconstruir e re-construir o imaginário e as práticas deletérias é tarefa árdua e implica um esforço individual, coletivo e institucional imenso. Ainda há tempo. O importante é ter disposição para assumir o compromisso, junto com as contradições e fragilidades de nossa condição atual. O primeiro passo, creio eu, é entender que as culturas de juventude são fruto de condicionamentos históricos, lutas por representação e reconhecimento e não barbarismo atávicos ou degradação do humano. A partir deste entendimento é possível construir diálogos, pontes, redes no lugar dos muros, medos e violências.
Como professor e defensor da escola pública, me parece urgente a nós que estamos nas instituições educacionais construir canais de debate e agregar forças para o enfrentamento das demandas da juventude e das comunidades locais. É preciso canalizar esforços para que as escolas e universidades tornem-se espaços para o confronto de ideias franco e democrático, onde se possa aprender e reaprender com o outro. Mas será que estamos prontos para ouvir, a ponderar, a confiar em nossa capacidade e na capacidade das criança, jovens e seus familiares em construir projetos que contribuíam, verdadeiramente para o desenvolvimento pleno da criatividade? Criatividade esta que possa colocar em prática e renovar as relações com nós mesmos, com os outros e com o mundo que nos cerca através das artes, as ciências, os usos do corpo, as relações com a diversidade, a democracia e a liberdade? Pode ser que sim, desde que estes espaços dedicados ao saber e à sua re-construção contínua não sejam vistos como apanágios salvacionistas, mas sim como instrumentos para a emancipação e renovação do real em detrimento dos enquadramentos autoritários e repressivos e das vaidades egoísticas.
O hip-hop surgiu ao longo dos anos 1970 como resposta ao urbícidio, que segundo Marshall Berman,atormentou os moradores do South Bronx - um gueto de classe trabalhadora negra e imigrante. Parecia não haver saída diante de tamanha degradação gerada pelos deslocamentos forçados pela destruição de áreas residências para a construção da Cross Bronx Expressway. As forças da intervenção urbana, baseada na especulação imobiliária ajudaram a desintegrar laços comunitários e de vizinhança. A violência aumentou, com as taxas de homicídio subindo ano após ano. A população foi assolada por umaepidemia de droga que se alastrou por entre as ruas desoladas pelos incêndios que queimaram as áreas que não haviam sido destruídas para o empreendimento. Neste momento as subestações de Corpo de Bombeiro eram fechadas com o argumento de que a população estava diminuindo. Surgiram inúmeras gangues, inclusive para a proteção de quarteirões contra as ações de outras. E tudo isso quando as fábricas fechavam suas portas e migravam para outras regiões ou países, atrás de incentivos fiscais e mão de obra barata, deixando para trás inúmeros desempregados.
Foi naquele contexto de angústia e miséria que adolescentes em sua maioria negros e latinos criaram através da arte e da diversão novos laços comunitários, novas famílias que deram sentidos às suas vidas, fornecendo alento, abrigo, alegria, estilo e modo de vida, muitos passaram a viver da arte da dança, do grafite, como Dj ou rapper. Mas também serviu como instrumento para seguir adiante e abraçar outras possibilidades para além das contingências do urbícidio. Construíram um poderoso meio expressivo que continuou reverberando para outros territórios e dando sentido para a vida de muitos jovens, ao redor do mundo, que encontraram no hip-hop uma saída. Aí está força do hip-hop. Porém, como qualquer produto humano carrega contradições e fragilidades. Sem, no entanto, "passar pano", indicam que é preciso enfrentá-las, pois, "se tu luta, tu conquistas":
Para terminar, creio que o trabalho de Hank Willis Thomas -da imagem que abre a postagem-, artista estadunidense que criou em 2007 a exposição Unbranded (Sem marca), ajuda-nos a manter a reflexão sobre o real e o possível na sociedade de consumo contemporanea. As obras consistem em publicidades que tiveram os logos e slogans retirados para que os corpos negros falassem por si. Confira AQUI.
Referências:
BERMAN, Marshall. À beira do fim: Nova Iorque na virada do milênio. In: SERPA, E. C. ...et al. Narrativas da modernidade: história, memória e literatura. Uberlândia: EdUFU, 2011, pp. 69-92.
CANCLINI, N. G. Consumidores e cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. RJ: UFRJ, 1999.
desde tempos imemoriais
fixei residência nesta sala de mixagem
cercado de Lexicon,
Syntaxis
Spatial Expander,
Omnix,
Scenaria,
Axiom,
Flyng Faders,
compressores,
condensadores.
e aqui estarei estarrecido
por toda eternulidade.
"pode a sorte separar-nos,
ou a morte de um ou de outro;
mas o amor subsiste, longe ou perto,
na morte ou na vida."
sobreviver ao recorte de Machado de Assis.
epitalâmio. epífita. epitáfio.
como se o tempo sucumbisse,
fora do escopo da máquina,
e pairasse, apenas, em algumas ilhas esparsas
da anacrônica memória pessoal.
[...] É um poema que fala de mixagem. Ele estava mixando um disco da Cássia Eller - e aí você pode passar duas horas e meia, três horas, quatro horas sem fazer nada, esperando que os meninos resolvam as coisas - e aí o poema dizendo os nomes dos equipamentos. Ele deve ter ficado horas, deve ter decorado o nome dos equipamentos, é muito engraçado.
Adriana Calcanhoto - A fábrica da canção
(Trecho de depoimento dado no II Encontro de Estudos da Palavra Cantada na UFRJ. Publicado em: MATOS, Cláudia Neiva de; TRAVASSOS, Elizabeth; MEDEIROS, Fernanda T. Palavra cantada: ensaios sobre poesia, música e voz. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008, pp. 44-54.)
A Constituição Federal de 1988 abre-se com a declaração de que “a República Federativa do Brasil é um Estado Democrático de Direito”. Na realidade, porém, o Estado Brasileiro não é republicano, nem democrático, nem tampouco um verdadeiro Estado de Direito.
Não é republicano, porque nesta terra, desde o Descobrimento, o interesse privado sempre prevaleceu sobre o bem público. Não é democrático, porque o povo nunca chegou a ter voz ativa na vida política. Enfim, não é um autêntico Estado de Direito, porque o grupo oligárquico, que sempre deteve o poder supremo e é a fonte primária de toda a corrupção, foge a qualquer controle jurídico.
Eis porque as últimas manifestações de protesto nas ruas das principais cidades do país constituem um fato histórico alvissareiro. Pode-se dizer que o povo cansou-se afinal do papel de mero figurante no teatro político e manifestou o desejo de assumir doravante a posição de verdadeiro titular do poder soberano.
Agora, é chegado o momento de o povo reivindicar o uso direto dos adequados instrumentos de decisão. Nesse sentido, tive oportunidade de elaborar e apresentar ao Congresso Nacional algumas proposições específicas.
A primeira delas é o Projeto de Lei nº 4.718, de 2004, cuja tramitação acha-se paralisada na Câmara dos Deputados. Ele dá ao povo a iniciativa de realização de plebiscitos e referendos, tendo por objetos principalmente a efetivação das normas constitucionais referentes à educação, à saúde e à previdência social. Ou seja, em vez de viver na vã esperança de receber, de tempos em tempos, pobres favores governamentais, o povo passará a exigir dos governantes o cumprimento do seu dever dar, mediante as políticas públicas adequadas, a constante efetivação dos direitos humanos de caráter social.
E se isto não acontecer? É aí que entra em jogo minha outra proposição, oferecida aos Senadores Eduardo Suplicy e Pedro Simon, e já transformada na Proposta de Emenda Constitucional nº 73, de 2005. Trata-se de dar ao povo o poder de destituir os agentes públicos por ele eleitos, antes mesmo de encerrado o seu mandato. É o recall, existente há muito tempo na Suíça e nos Estados Unidos.
Deus permita que os líderes dos principais movimentos sociais, que desencadearam as recentes manifestações de protesto, saibam unir-se para exigir a aprovação desses instrumentos de radical transformação do sistema político brasileiro!
Marcha das Vadias, Goiânia, 07/07/2012 Fonte: http://goo.gl/tpUOP
Reproduzo reflexão do amigo Miguel, que musicalmente falando defende a rua como lugar de mulher.
Em Goiânia, capital de Goiás, terra de "coronelismo" latente e permanente algumas insistem em estar nas ruas afrontando a "boa moral", os "bons costumes", a "família patriarcal" e a "ordem pública".
Antes do texto, porém, um depoimento de Margarida Alves, paraibana, mulher do campo, uma musa vadia que pagou com a vida por estar no "espaço público" defendendo interesses dos "camponeses":
SOU BANDIDA, SOU SOLTA NA VIDA - 11/5/2013
Miguel dos Reis Cordeiro Neto
Foi desse jeito, completamente irreverente, que O Chico Buarque expressou a ideia de uma mulher feita sob medida para um homem. E acrescenta – "sou perfeita porque, igualzinho à você, eu não presto". De fato, a ideia do Chico é muito complicada. Contudo, também muito interessante e de muito sentido no mundo pop. Haja vista o bordão, recentemente criado e lembrado por pessoas de todas as classes sociais que é aquele da Zorra Total, TV Globo, pra variar, quando a personagem Valéria, transformista, porque mandou pastar o pau do Valdemar, repete para a amiga de forma entusiasmada – "Ah! Como eu sou bandida!"
Ação policial em Protesto Contra o Aumento da Passagem do Transporte Coletivo, Goiânia, 28/05/2013
A mulher que o Chico concebe, além de bandida, também é traiçoeira e vulgar, sem nome e sem lar, é filha da rua e cria da costela do homem que a cobiça. O que isso diz, afinal? Posso arriscar que a música do Chico é uma declaração de amor à rua. Rua aonde a moral burguesa não chega, aonde ninguém é de ninguém, aonde o palavrão vale muito, aonde a religiosidade e seu ideal de pureza passam longe, aonde, enfim, quem quer ficar solto na vida, tem grandes chances de conseguir. A magia da rua acontece na exata medida em que não é nada e é tudo: não é o lar, não é a família, não é a coisa moral, não é o politicamente correto, não é coisa de marido nem de esposa, não é coisa da escola nem da igreja, não é, principalmente, restrição à porra nenhuma que proíbe ou limita. A rua é o mundo, a liberdade louca, a coisa doida, o espaço da cobiça desbragada, do sexo quase explícito, ainda que pornográfico.
O problema é que quem não é de nada, não topa nada e gosta de blefar que é "fodão", sem amarras e sem juízo, também quer estar na rua. Ainda que, apenas, simbolicamente. O Vinícius de Morais, que gostava muito da rua, mandava todos esses pra "tonga da mironga do cabuletê".
A rua, por ser um espaço plural, também é um fenômeno de comunicação, de inclusão, de integração. Não existe para quem quer um momento de exceção, de libertação, de se colocar na esbórnia pra depois sair. Existe, antes, como oficina para a construção de mundos possíveis, de estados utópicos de alma, de viver "fora da nova ordem mundial", como diz o Caetano. Não é de gente que num momento de tédio procura o diverso, a diversão do diverso, a contramão do que é universo para, depois de distrair-se, voltar ao normal.
Grandes e tremendas coisas foram feitas na rua: a revolução francesa, os diálogos irônicos de Sócrates, os atos de Cristo, conforme ele mesmo declarou a Pilatos, as caminhadas políticas de Gandhi, os discursos de Luther King e muito mais.
Realmente o Chico tem razão quando afirma que a mulher perfeita, feita sob medida está na rua, como ser político, filosófico, com a seríssima missão de desconstruir, de modo bandido, o mundo de quem não leva a vida e a rua à sério.
A política em Goiás é baseada em estruturas conservadoras, fruto ainda do coronelismo e de uma visão tradicional. A capacidade de mudança é mínima, pois a própria população tem uma visão clientelista.
No facebook militância digital do governador Marconi Perillo responde críticas feitas por alunos da Universidade Estadual de Goiás ameaçando e argumentando ser melhor fechar a UEG. Dois dias depois estão deletadas as críticas e as o argumento ameaçador, nenhuma novidade em se tratando da relação estabelecida entre um governo e seus críticos.
Desde que a Operação Monte Carlo desbaratou esquema de exploração de jogos ilegais e corrupção em Goiás e no Distrito Federal revelando forte influencia do bicheiro Carlinhos Cachoeira no governo do Estado de Goiás toda e qualquer crítica ao governador e aos atos do governo é tratada como calúnia, difamação que devem ser judicializadas. A liberdade de expressão, o avanço e a consolidação dos princípios democráticos em Goiás parecem comprometidas. Como as evidências abaixo parecem demonstrar:
- Nota do sindicato dos jornalistas contra a intimidação de jornalistas, aqui.
- A defesa da judicialização foi feita pelos secretário Joaquim de Castro, leia aqui. E também pelo advogado do governador João Paulo Brzezinski, aqui. Vale lembrar que Brzenzinski teve seus bens retidos pois é suspeito de participação, junto com os ex-reitores José Izecias, Luiz Arantes e o ex-prefeito de Anápolis Pedro Saihum, em esquema de desvios de verbas da UEG, aqui.
- Mauro Marlin expõe a ambiguidade no discurso do PSDB sobre a liberdade de imprensa, aqui.
- Em blog de militantes do governador Marconi, afirmam que não há processo contra jornalistas, mas sim militantes, aqui.
A arrogância dos que apoiam o governo do "Avança Goiás" parece não ter limites, e alguns comentários nas redes sociais são sintomáticos. Ontem, 23 de maio, por volta das 20hs, a "Militância Digital que apóia o governador" e mantém a página Marconi Perillo Governandor no Facebook publicou uma foto com a mensagem: "A nossa missão é proteger o futuro dos jovens goianos", aqui.
Logo após a publicação alguns comentários apoiaram, outros criticaram a mensagem, que também foi compartilhada por algumas dezenas de seguidores. Porém, o que mais chamou a atenção foram as respostas dadas pela "militância digital" à crítica feita por alunos da UEG, onde desde o dia 25 de abril têm paralisadas as atividades em algumas unidades que aderiram à Greve Geral - mais informações, aqui.
As respostas já foram deletadas. A "militância" que respondeu aos críticos dizendo que se a mobilização na UEG e principalmente a inserção de críticas na página do Governador continuassem a Universidade Estadual de Goiás seria melhor fecha-la. O argumento ameaçador defendeu, ainda, que o fechamento da UEG contribuirá com mais verbas para o programa Bolsa Universitária.
Pelo jeito a militância defende a perspectiva do falecido ex-ministro da educação de Fernando Henrique Cardoso, Paulo Renato de Souza - Idelber Avelar apresenta o que a grande mídia não falou do ex-ministro, aqui. A perspectiva é a neoliberal, onde é igual mercado e não um direito. Uma lógica que o Ministério da Educação da era Lula e Dilma parece ter mantido, apesar da ampliação do ensino público superior e dos institutos federais e dos concursos públicos ligados a tal expansão, um panorama aqui.
Vejamos o que disse a "militância digital":
Na sequência reafirmam a ideia de que é melhor fechar a UEG. Como se não houvesse mérito em quem escolhe fazer um curso nessa instituição. Para a militância digital o mérito é uma prerrogativa apenas dos bolsistas que estudam em faculdades particulares. Seriam os militantes bolsistas? Conquistaram a bolsa por mérito ou clientelismo?
Percebe-se que não entendem nada de UEG.
Vale lembrar que Marconi se arvora a ser o pai da UEG, porém, o que fez foi oficializar uma ideia gestada nas faculdades municipais e estaduais isoladas. Havia um desejo de professores da Uniana, da Feclem, entre outras, de criar uma universidade estadual. Porém, astuto o "Tempo Novo" percebeu que tal projeto daria visibilidade e destaque para o projeto de distanciamento dos antigos governos do PMDB - partido de onde saiu Marconi - e serviria para consolidar a ideia de governo moderno. Porém, o que se viu foi a criação de um monstro. Sem planejamento, abriram-se unidades e polos da UEG ao bel prazer dos acordos entre governo estadual com alguns prefeitos, enfim, os critérios parecem ter sido clientelistas - hoje são 42 unidades.
Goiás à fora diversos cursos funcionaram e ainda funcionam de maneira precária, sem laboratórios, com bibliotecas defasadas, sem professores e servidores efetivos - os salários para temporários são uma vergonha e nem um pouco atrativos, alguns cursos funcionam sem o quadro completo -, ainda que haja uma promessa de concurso para esse ano não haverá uma mudança tão significativa. Para se ter uma ideia existem professores e servidores em contrato temporário que estão a mais de 12 anos na UEG.
Os comentários tornam-se ainda mais simbólicos porque são publicados em um momento em que alunos, servidores e professores em greve bloqueiam rodovias em vários pontos de Goiás, vejam aqui.
Percebe-se que realmente há uma preocupação com o futuro dos jovens de Goiás, mas daqueles jovens que participam da militância em apoio ao governo, aos filhos dos correligionários, à base de apoio, aos puxa-sacos e bajuladores.
A pergunta que fica é: até que ponto esta perspectiva da militância é também a do governo de Marconi Perillo?
Aos que criticam e se opõem a esse estado de coisas deplorável sobram ameaças, processos... fico a imaginar Brzezinski como desembargador, tétrico!!!!
O treze de maio, como no caso do sete de setembro, foi transformado em um evento despido de qualquer radicalidade e conflito. Assim, as elites políticas e intelectuais nos legaram uma memória da abolição da escravidão como um feito da ousadia e consciência de abolicionistas e de uma princesa. Tal construção legou ao esquecimento as ações daqueles a quem realmente interessava a liberdade. Vários trabalhos já contestaram as perspectivas que negaram aos escravizados e aos negros libertos a participação nas lutas pela liberdade. Destaco trecho de uma obra que nos ajuda a ampliar a visão sobre os sujeitos históricos envolvidos no processo abolicionista e que não sei porque cargas d'água quase não se encontra presente nas narrativas dos atuais livros didáticos de História:
"Enquanto os anos [1870] revelam-se marcados pelos crimes feitos individualmente ou em pequenos grupos de escravos, os primeiros anos da década de 80 primam pelas revoltas coletivas ou insurreições, registradas em fazendas de diversos municípios.
[...]
À medida que cresciam as fugas em massa das fazendas, sobretudo a partir dos últimos meses de 1887, radicalizava-se o movimento abolicionista nas cidades, em especial nos centros mais populosos, como Santos e São Paulo.
Ao contrário do que os abolicionistas do jornal paulista A Redempção estavam sempre a reafirmar - a fraca participação dos negros nesse movimentos -, os relatórios de 1887 e 1888 dedicam grandes espaços não só às fugas de escravos e conflitos nas áreas rurais, como também às lutas de negros com a polícia nas ruas das cidades.
'[...] os pretos que, no dia anterior, haviam provocado a força pública voltaram à carga, já desafiando as praças de polícia... Vendo-se, porém, que o tumulto aumentava e com ele o número de negros, que erguiam vivas à liberdade e morras aos escravocratas, estabelecendo desta forma o pânico entre as famílias que estavam no jardim do Palácio, mandou-se que os portões de entrada fossem guardados por praças de Cavalaria...
Assim impedidos de penetrarem no jardim, os desordeiros lançaram então mão de outro expediente, qual o de utilizarem-se das pedras que achavam-se em frente à nova Tesouraria, para arremessá-las contra as praças que guardavam os portões, e o mesmo fizeram aos soldados que nessa ocasião tentaram prender dois dos desordeiros que, de cacete, acometiam a força...' (Relatório do Chefe de Polícia Interino da Província de São Paulo, 30 de novembro de 1886)
Para que os interesses do capital saíssem intatos desta época de instabilidade geral das relações de produção, era preciso, portanto, firmar-se uma união nacional...
No início de maio de 1888, os políticos dos três partidos - Liberal, Conservador, Republicano, aos quais se filiavam escravistas, emancipacionistas e abolicionistas indistintamente - deram-se as mãos num consenso quase absoluto e votaram a Lei de Abolição, clamando em meio a loas e hinos à pátria pela conciliação, o que queria dizer esquecimento dos conflitos passados e sobretudo não-revanchismo."
In: AZEVEDO, Celia Maria M. ONDA NEGRA, MEDO BRANCO: o negro no imaginário das elites - século XIX. RJ: Paz & Terra, 1987, pp. 199-215.
Enquanto a gente sonhar, a estrada permanecerá viva.
É para isso que servem os caminhos, para nos fazerem parentes do futuro
Mia Couto
A Escola da Ponte idealizada por Zé Pacheco é o modelo para tal experimento, acesse aqui uma publicação que expõe parte de seu pensamento sobre a educação: LINK
Relendo o livro A construção de Brasília: modernidade e periferia de Luiz Sérgio Duarte da Silva - que aliás foi meu orientador no mestrado - me deparei com um trecho de depoimento de um 'candango' que havia passado batido nas leituras anteriores. Fiquei encucado.
Trata-se de um trecho do quarto capítulo intitulado "A construção de Brasília como experiência moderna na periferia capitalista: aventura e alienação", dentro da primeira seção: A aventura, onde Da Silva reconstrói, através de um diálogo entre a memória dos construtores e uma teoria da modernidade crítica da ideologia do progresso, a experiência singular vivida pelos indivíduos que se dispuseram a participar do grandioso projeto desenvolvimentista na região de fronteira.
Especificamente o trecho está situado junto com outros depoimentos que evidenciam a experiência da aventura rememorada pelos depoentes, que são divididos em duas categorias entre aqueles para os quais a aventura é uma reconstrução e outros em que ela é uma "simples possibilidade construtiva". O trecho do depoimento que transcrevo abaixo situa-se na segunda categoria:
Eu para mim... pra minha vida... como eu falei para vocês que eu trabalhava numa roça na Bahia, e vim VENDIDO pro Goiás e EU VIM VENDIDO PRO GOIÁS e eu vim viver aqui dentro do DF. Pra mim tudo... a construção de Brasília... E eu devo a minha vida a Brasília... E tudo que eu aprendi foi em Brasília. Foi onde eu tive a oportunidade de aprender alguma coisa foi em Brasília. [Bispo I] (1997: 84)
Como assim, vendido? Houve um tráfico de escravos em pleno momento moderno da nação? Infelizmente Da Silva não aprofunda a questão e assim não podemos ficar sabendo quem foi Bispo I, e principalmente qual o significado da afirmação: "eu vim vendido". Há outro trecho quando trata da "democracia da fronteira" em que aparece novamente depoimento de Bispo I:
Nessa época não podia achar que nego não sofreu, porque não tinha jeito, não é? ... Mas, a gente não sofria tanto, de que... alguns problemas que a gente sente hoje porque parece que não tinha maldade sabe? Nas pessoas então tinha assim... parece que era tudo irmão. Era engenheiro, era peão, tudo assim aquela coisa. (Idem: 81)
Este depoimento ajudava a confirmar uma "experiência autêntica", produtora da crença da construção de uma "cidade de tipo novo", onde se poderia viver uma "vida diferente". Para Da Silva, os construtores "experimentaram a rara junção de trabalho e felicidade" (ADORNO), o que contribui para que suas lembranças, não emergissem como mera idealização, mas evidenciando um exemplo de sabedoria. Sendo os depoentes definidos como narradores que aconselham, proporiam um conselho para o presente, o de que aquele momento singular no canteiro de obras e nos espaços de sociabilidade que se materializava na aventura as relações humanas aproximaram-se do ideal. Ideal corroído pela passagem do tempo e pela transformação dos sonhos em novas realidades menos heroicas e mais desiguais.
Já perguntei ao professor Luiz Sérgio Duarte da Silva sobre o significado do "EU VIM VENDIDO", aguardemos a resposta...
Para outros tais mobilizações são perca de tempo, ações sem resultados práticos.
Ainda existem aqueles que desejam a paralisação para descansar, tirar o atraso de seus compromissos.
E também existem aqueles que acreditam que sem pressão a UEG continuará sofrendo a intervenção de interesses que não fazem jus à verdadeira finalidade de uma instituição de ensino superior (ensino, pesquisa e extensão).
Deve-se somar, também, aqueles que acreditam em uma quase predestinação, haverá uma evolução natural ao longo do processo histórico. Assim, seja através do embate ou da acomodação, na UEG, serão consolidadas a autonomia administrativa, um plano de cargos e salários digno, a assistência estudantil, as reformas e ampliações dos espaços físicos, a criação de laboratórios e principalmente a necessária reestruturação.
Junto a estes últimos estão aqueles que esperam que alguém aja por eles, traga os benefícios. Ação típica de nossa cultura paternalista - "ignorância pluralística", "cultura do silêncio", "jeitinho", "compadrio" - que se exacerba nas terras dos novos coronéis sempre iguais.
Todos estes, ao avançar as negociações do processo político necessário, ao materializar-se as demandas regozijarão e se beneficiarão. E tenho certeza, nem o mais doido de "jogar pedra" renunciará aos direitos adquiridos, e muito menos à consolidação institucional.
Dito isso, posso responder à dúvida dos alunos.
Haverá aula sim, pois, não houve uma decisão da comunidade universitária da Unu-Morrinhos.
Quanto ao curso de História, não recebi nenhum comunicado do coordenador, que falou em reunir os colegas em uma reunião para definir se paralisaríamos ou não.
Eu também disse que iria paralisar no dia 16 de abril. Mas é que "eu não sou besta pra tirar onda de herói..." e portanto, haverá aulas.
Legalizar para preservar vidas Talita Rodrigues - 27/03/2013
“Os maiores prejuízos e perigos das drogas ilícitas são causados pela sua proibição. Mais pessoas morrem na guerra contra a maconha e a cocaína, do que pelo uso dessas drogas. Com a legalização das drogas, não haverá mais autorização para matar pessoas com o carimbo de traficantes”, afirmou o delegado Orlando Zaccone, mestre em Ciências Penais, durante a abertura do Curso de Atualização na Atenção ao uso Prejudicial de Álcool e outras Drogas da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV). “As drogas matam proibidas e legalizadas, mas proibidas matam mais porque matam não só pelo uso, mas também pela proibição. Podemos reduzir os danos com a legalização da venda e do consumo”, destacou Zaccone, acrescentando que não é a favor do consumo das drogas, mas da legalização de seu uso. “O campo da moralidade é individual. Posso ser contra o uso, mas entender que a legalização é benéfica para a sociedade. Não devemos confundir a legalização com o estímulo ao consumo”, completou.
Para Zaccone, a proibição é uma tragédia social porque ao criar a figura do ‘traficante’, torna uma pessoa ‘matável’ ou alvo de uma política carcerária ineficiente e cruel. Ele ressaltou que o Brasil tem a quarta maior população carcerária do mundo, com cerca de 500 mil presos. “A prisão não resolve o problema. Lotamos o cárcere de pessoas rotuladas como traficantes. Isso é muito pior que o consumo de drogas do mundo. Somos um país que está levando para o cárcere crianças e jovens envolvidos com drogas. É muito fácil colocar os problemas para dentro do cárcere ou da vala”, disse o delegado. “Para reduzir os efeitos das drogas, temos que ir pela legalização e o Brasil está muito atrasado nessa questão. Outros países já entenderam que a solução das drogas passa por uma legislação mais branda”, comparou.
De acordo com dados da Anistia Internacional, em 2011, nos 20 países que tinham pena de morte instituída, 676 pessoas morreram condenadas. No mesmo ano, 524 pessoas foram mortas pela Polícia Militar no Rio de Janeiro e 437 em São Paulo, totalizando 961 mortes em apenas dois estados, 42% a mais que em todos os países com pena de morte. “E essas mortes são legitimadas por uma guerra contra as drogas”, observou Zaccone, explicando que quando um PM mata em serviço, é aberto um inquérito como auto de resistência, ou seja, legítima defesa do agente da lei. O PM responde ao inquérito em liberdade e se provar que não tem culpa, não tem processo. “Legítima defesa não condena, 95% a 99% dos inquéritos são arquivados e as mortes são legitimadas. O Ministério Público pede o arquivamento e o juiz de direito legitima a matança”, explicou.
Segundo o delegado, a maioria dos arquivamentos são feitos na comprovação de que o morto era traficante. “Junto com o morto, apresentam sempre uma arma e uma quantidade de drogas e o confronto é sempre em um local conhecido como ponto de venda de drogas. Se morre na favela um negro, jovem, com armas e drogas, já tem o ‘selo’ de traficante e está legitimada a morte. Então, no Brasil, tem pena de morte. A exceção virou regra e o Brasil trabalha em estado de exceção permanente com a execução de pessoas rotuladas como traficantes”, destacou Zaccone. “Temos uma legislação criminal que suspende o direito à vida dos traficantes. Isso já seria suficiente para propor a legalização das drogas ilícitas. O traficante não é visto como um ser humano, por isso, se autoriza sua execução. O fato de a pessoa ser identificada como criminosa não pode dar o direito de o policial matá-la. Se mata o traficante é legítimo, mas se mata o estudante não é. Mas o estudante pode ter morrido trocando tiros com a polícia e o traficante, implorando pela vida. E o policial só é punido quando a mãe consegue provar que seu filho não é traficante, mas a mãe do traficante também pode exigir a garantia da vida do seu filho porque não temos pena de morte instituída no Brasil”.
Proibição
O fato de a saúde não entrar na questão da proibição ou não de uma droga é outro problema levantado por Zaccone. “Todas as drogas, lícitas ou ilícitas, trazem malefícios à saúde. Não tem uma distinção científica para definir por que algumas são proibidas e outras são permitidas. O fato de uma droga ser proibida ou não, não é uma questão de saúde, mas uma construção política de um ambiente social”, destacou o delegado, acrescentando que, em 2014, o álcool, que em alguns países árabes é proibido, vai patrocinar a Copa do Mundo de futebol, o maior evento esportivo do mundo. “E, segundo pesquisas, o álcool é a droga que mais causa danos à população. Mas a propaganda de bebidas não é proibida como a de cigarros e essa diferença de tratamento é fruto do lobby das indústrias no Congresso Nacional. Os prejuízos causados pela proibição da propaganda de álcool seriam muito maiores que os do cigarro. Quando se fala das drogas ilícitas, se esquecem das lícitas. O álcool causa acidentes de trânsito, violência doméstica e não se fala dos efeitos nocivos do álcool. Mas será que a proibição do álcool iria resolver?”, questionou Zaccone.
No caso das drogas, o controle e a proibição do uso de uma substância muitas vezes estão ligados também ao público usuário. Zaccone lembrou que a maconha, por exemplo, foi proibida há dezenas de anos porque era usada pelos escravos e havia um movimento para reprimir tudo que vinha desse grupo de pessoas, não só a maconha, como também a capoeira e o samba, por exemplo. O objetivo não era controlar o uso da droga, mas a população que fazia uso dela. “O que acontece hoje com o crack é um movimento parecido. Não existe uma preocupação humanista. Querem controlar quem usa essa substância e está nas ruas”, destacou.
Segundo o delegado, de acordo com informações da Prefeitura do Rio de Janeiro, 70% das pessoas recolhidas nas ruas em operações contra o uso de crack não têm problemas com drogas. “A área de saúde pública está contaminada pela polícia. Estão fazendo uma faxina social para tirar das ruas as pessoas que estão no que eles chamam de cinturão de segurança do Rio de Janeiro (Zona Sul, Tijuca e Avenida Brasil até o aeroporto). A luta contra a internação compulsória é um marco e temos que politizar esse debate”, ressaltou.
Zaccone destacou que quanto mais se proíbem as drogas, mais elas são vendidas e consumidas. Já com a legalização, elas passariam a ter sua venda regulamentada. “O crack e a cocaína podem ir para o mercado como permitidos, com regras para a venda e o consumo dessas substâncias. O comércio em uma drogaria é mais saudável do que em uma boca de fumo porque não tem morte, não tem disputa. A violência e a corrupção não são produtos do uso da droga, mas da sua proibição”, disse.
Para o delegado, um mundo sem drogas, como o proposto pela Organização das Nações Unidas (ONU), nunca vai se realizar, pois não existe uma sociedade que não tenha um desvio, algumas vezes até positivos e necessários. “As pessoas vão continuar usando drogas porque há muito tempo a humanidade já fazia uso de muitas dessas substâncias que hoje são proibidas. Além disso, diversas substâncias podem trazer problemas para as pessoas. Tem gente que tem problemas com a comida. Então, vamos proibir a comida?”, questionou.
Curso
A conferência ‘Drogas: os prejuízos da proibição’ foi proferida durante a abertura do curso de Atualização na Atenção ao uso Prejudicial de Álcool e Outras Drogas, no dia 22 de março.
O curso é oferecido há sete anos pela Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio e, neste ano, tem uma turma formada por 51 alunos que atuam em serviços do Sistema Único de Saúde em diversos municípios do estado do Rio de Janeiro.
Enquanto os católicos aguardam em oração o Conclave e a escolha do novo Papa relembro trechos de duas grandes obras ("Os irmãos Karamazov" do russo Fiódor Dostoiévski; "Casa-grande & senzala" de Gilberto Freyre) que nos falam do amor de cristo atuando nas relações entre os educadores cristãos e seus pupilos.
'Gregório ensinou-o a ler e a história sagrada desde que completou 12 anos. Mas esta tentativa foi infeliz. Um dia, numa das primeiras lições, o menino pôs-se a rir.
- Que tens? - perguntou Gregório, olhando-o severamente por cima de seus óculos.
- Nada. Deus criou o mundo no primeiro dia; o sol, a lua, e as estrelas no quarto dia. Donde vinha, pois, a luz do primeiro dia?
Gregório ficou estupefato. O menino olhava seu amo com ar irônico, seu olhar parecia mesmo provocá-lo. Gregório não pode contentar-se: "Eis donde ela veio!", exclamou, esbofeteando-o violentamente.'
Fiódor Dostoiévski. Os irmãos Karamazov. São Paulo: Abril Cultural, 1970, p. 126
'Os padres-mestres e os capelães de engenho, que, depois da saída dos jesuítas, tornaram-se os principais responsáveis pela educação dos meninos brasileiros, tentaram reagir contra a onda absorvente da influência negra, subindo das senzalas às casas-grandes; e agindo mais poderosamente sobre a língua dos sinhô-moços e das sinhazinhas do que eles, padre-mestres, com todo o seu latim e com toda a sua gramática; com todo o prestígio das suas varas de marmelo e das suas palmatórias de sicupira. Frei Miguel do Sacramento Lopes Gomes era um dos que se indignavam quando ouvia "meninas galantes" dizerem "mandá", "buscá", "comê", "mi espere", "ti faço", "mi deixe", "muler", "coler", "le pediu", "cadê ele", "vigie", "espie". E dissesse algum menino em sua presença um "pru mode" ou um "oxente"; veria o que era o beliscão de frade zangado.'
Gilberto Freyre. Casa-grande & senzala. 46ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2002, p. 389.
O governo busca patrocínios para realizar um show de Paul MacCartney no Estádio Serra Dourada. Seria entre abril e maio, quando o cantor estará em turnê pela América do Sul."
Coluna Giro - O Popular - 27/03/2013
Diversas lideranças do atual executivo goiano - Avança Goiás - criticam a intervenção estatal na economia até a perna de mesa cansar, mas querem produzir show internacional? Que coisa estranha. Bom, mas vamos mudar isso aqui, melhor dizer, promover show de McCartney, abaixo vem a dica de quem deverá produzir.
Aliás, em Belo Horizonte o show de Paul McCartney foi confirmado pelo Secretário de Estado Extraordinário da Copa do Mundo, Tiago Lacerda - nomeação questionada pelo ministério público de MG- , filho do atual prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda do PSB.
Do blog de Fabiana Pulcinelli temos novas notícias, sobre valores:
Governo estadual pagará R$ 1 milhão por show do Paul McCartney em Goiânia
O governo de Goiás está disposto a bancar a metade do valor do show do Paul McCartney em Goiânia, de R$ 1 milhão. A outra cota de patrocínio deve ser fechada esta semana com uma empresa.
Conforme divulgou O POPULAR hoje com exclusividade, o show será na primeira semana de maio, no estádio Serra Dourada. Hoje pela manhã, a informação do governo é de que a data mais provável é dia 5.
Luiz Oscar Niemeyer, produtor do Paul na América do Sul, esteve em Goiânia na semana passada, junto com equipe técnica, quando conheceram estádio e hotéis. Luiz, neto de Oscar Niemeyer, também visitou o Centro Cultural que leva o nome do avô e sugeriu realizar evento de anúncio do show no local.
Os valores dos ingressos ainda não foram definidos, mas o governo afirma que deve ser na média dos preços do show em Fortaleza e Belo Horizonte. Lá os valores ainda não foram divulgados.
Quem levou a ideia do show em Goiânia ao governo foi o cantor sertanejo Zezé di Camargo, goiano de Pirenópolis. Luiz Oscar comentou que gostaria de fazer o show em Brasília, mas que o estádio não estaria pronto, e perguntou se seria uma boa opção a capital goiana. Zezé entrou em contato imediatamente com o governador Marconi Perillo (PSDB), que ficou entusiasmado com a possibilidade e acelerou as articulações. O tucano viu o show do ex-beatle no Rio em 2011.
"R$ 1 milhão não é nada perto do que vamos movimentar a cidade e pela importância de um show como esse. Vai vir gente de Minas, Tocantins, Brasília. Isso movimenta muito a economia", diz uma fonte do governo, que participa da negociação.
Não creio ser pedante apresentar uma correção feita por Flávio Khote para uma noção vulgarmente difundida quando se propõe a analisar produção artística e cultural na contemporaneidade.
"A sociologia usa a expressão "indústria cultural", que neutraliza o sentido crítico de "Kulturindustrie", "indústria da cultura", usado por Adorno e Horkheimer em 1947, no livro Dialektik der Aufklaerung, Dialética do iluminismo (também mal traduzido como "Dialética do esclarecimento"). O termo "indústria cultural" sugere que a indústria "é" cultural, mas o sentido original é que a industrialização da cultura, em que esta é confundida com a mercadoria, constitui um ataque à cultura, reduzindo-a à diversidade e à banalidade". Flávio R. Khote. Nota do tradutor. In: (sel.; trad.) NIETZSCHE, Friedrich. Fragmentos finais. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 2007, p. 15.
Ainda que esclarecida a confusão, me arrisco a dizer que na perspectiva 'frankfurtiana' certamente no Brasil estaríamos reduzidos à arte menor, à cultura banal e diversa. Em volta da questão da indústria da cultura alguns textos recentes circulam pela internet e aguçam a reflexão.
Mino Carta em editorial da revista Carta Capital critica o que chama de imbecilização do Brasil, mais do que discutir a produção artística, o jornalista coloca a grande mídia, sobretudo Globo e Veja como as grandes vilãs nesse processo. Ao que parece o espectro adorniano ronda a análise de Carta:
O deserto cultural em que vivemos tem largas e evidentes explicações, entre elas, a lassidão de quem teria condições de resistir. http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-imbecilizacao-do-brasil/
A também jornalista da revista Carta Capital, Cynara Menezes, respondeu Mino Carta defendendo uma perspectiva para arte que questiona a ideia de deserto cultural e imbecilização do Brasil. A socialista morena já se distancia da perspectiva iluminista adorniana para defender a ideia de que do "lixão nasce flor", retomando metáfora que finaliza texto de Carta:
Nos últimos anos, uma nova cultura está surgindo, mas é preciso ter olhos para vê-la. É forte a cultura que vem da periferia e cada vez mais será. http://www.socialistamorena.com.br/em-que-tipo-de-arte-voce-acredita-ou-a-imbecilizacao-da-elite/
Outro texto é uma entrevista muito interessante do antropólogo Hermano Vianna, que diferente da socialista morena não crê na ideia de inclusão para falar em arte e cultura, e se posiciona em uma perspectiva relativista:
Constantemente me pego fazendo coro para Hêmon brigando com seu pai Creonte, em Antígona: "Guarda-te, pois, de te apegares a um só modo de pensar, crendo que o que dizes, e por seres tu que o dizes, exclui qualquer outra possibilidade de ver e sentir as coisas". Não tem quem me convença que há um fundamento estético único a partir do qual podemos decretar o empobrecimento ou o enriquecimento das criações humanas. Mas digamos que há: então encontro no funk muitos elementos que o tornam superior a uma sub-MPB que tentam me empurrar como música de qualidade. O tamborzão do funk salvou a música brasileira na virada do século 20 para o 21. É vanguarda mesmo, concretismo eletrônico afro-brasileiro. Mas para quem acha que hip hop não é música, ou que Stockhausen não é música, o que estou falando é delírio. Um consolo é saber que a produção da gravadora Motown um dia foi considerada por todos os críticos como lixo comercial sem futuro. http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,o-abacaxi-da-cultura,995433,0.htm
Entre essas reflexões cada uma ao seu modo tem trechos que me desagradam e outros que me aprazem, mas sobretudo contribuem ao seu modo para que eu amadureça um estudo sobre culturas políticas do rap no Brasil e em Cuba durante os anos 1990.
Se hoje o casamento gay é tido como uma ameaça a família, na primeira metade do século XX, para Mário de Andrade, o rádio era a ameaça:
"Na sociedade contemporânea, com a ascensão do proletariado e da pequena burguesia a ele adesiva, os dois grandes instrumentos musicais do nosso tempo, vitrola e rádio, especificamente popularescos, mostram a definitiva derrota da vida familiar (substituição do piano - família, pelo rádio = colectividade popularesca) como princípio básico da sociedade". Mário de Andrade em carta para Oneyda Alvarenga, 1940 (Apud, QUINTERA-RIVERA, Mareia. A cor e o som da nação: a idéia de mestiçagem na crítica musical do Caribe hispânico e do Brasil (1928-19480). São Paulo: Annablume/FAPESP, 2000, p.119)
As primeiras transmissões radiofônicas no Brasil ocorreram em 1922, no link a seguir o site de Magali Prado - certamente o mais completo sobre a história do rádio no Brasil: http://www.historiadoradionobrasil.com.br/
Nos 90 anos de rádio no Brasil o Observatório da Imprensa realizou um programa especial, que conta com a própria Magali Prado e outros especialistas, além de gente que ajudou a fazer o rádio no Brasil. Vale a pena ser visto:
Enfim, o rádio não acabou com a família - inclusive algumas famílias foram formadas através da mediação radiofônica -, e nem as transformações tecnológicas acabaram com o rádio. Certamente a família e o rádio não são os mesmos da década de 20 do século passado, transformações inevitáveis, pois nada é constante entre o céu e a terra, sobretudo quando se trata de produtos humanos.
Aliás, se Mário de Andrade, um homem de sexualidade indefinida, vivesse nos dias de hoje, caracterizados por uma moralidade mais maleável, possivelmente não faria ressalvas ao casamento gay e quiçá defenderia o rádio analógico contra o rádio digital pela preservação da qualidade sonora.